Hoje é dia das mães. Já são quase 19h, está um pouco tarde, eu sei, mas ando tendo menos tempo do que gostaria para fazer as coisas que gostaria. Estava aqui pensando e resolvi escrever sobre mães que me marcaram nos livros lidos da minha estante. Algumas são personagens fictícias, outras são personagens reais, mas são todas uma representação forte do que eu entendo como ser mãe: a entrega total aos filhos, a força, a abnegação, a dedicação, a luta. Assim, vamos a elas:
Ana Terra
É uma das minhas personagens favoritas não só em O Tempo e O Vento, obra-prima de Erico Veríssimo, mas também na literatura. Ana Terra, ainda adolescente, vive com a família em uma estância no meio do nada no Rio Grande do Sul. Se apaixona por Pedro Missioneiro, mestiço que ela encontra ferido no riacho e que acaba por ser acolhido em casa para ajudar na lida com a terra e os bichos. Quando Ana descobre que está grávida, o pai e os irmãos matam Pedro. Mãe solteira, Ana vê a mãe morrer logo em seguida, e se torna a mulher da casa, cuidando dos homens que ali viviam. Pedrinho, seu filho, já era um menino quando a estância foi invadida por castelhanos. Ana esconde o filho, a cunhada e o sobrinho, e se junta ao pai e aos irmãos para enfrentar os invasores. Os homens são todos assassinados, e Ana é estuprada até perder a consciência. Quando acorda, junta o pouco que sobrou e parte rumo ao vilarejo de Santa Fé, onde vive até o fim da vida com o filho e os netos, usando a velha tesoura da mãe para trazer ao mundo os filhos dos que lá habitam.
Nas palavras do autor: "Ana sentia-se animada, com vontade de viver. Sabia que, por piores que fossem as coisas que estavam por vir, não podiam ser tão horríveis como as que já tinham sofrido. Esse pensamento dava-lhe uma grande coragem. E ali, deitada no chão, a olhar para as estrelas, ela se sentia agora tomada por uma resignação que chegava quase a ser indiferença. Tinha dentro de si uma espécie de vazio: sabia que nunca mais teria vontade de rir nem de chorar. Queria viver, isso queria, e em grande parte por causa de Pedrinho, que afinal de contas não tinha pedido para vir ao mundo. Mas queria viver também de raiva, de birra. A sorte andava sempre virada contra ela. Pois Ana estava agora decidida a contrariar o destino." (VERÍSSIMO, 2004: p. 162)
Bibiana Terra Cambará
Mais uma personagem de O Tempo e O Vento, eu sei. É que essa obra tem tantos personagens incríveis, masculinos e femininos. Bibiana também é uma das minhas personagens favoritas nessa obra e na literatura. Resiliência é a palavra que a define melhor, eu acho. Vejam só: Bibiana se casa com o Capitão Rodrigo Cambará (que é outro personagem que eu adoro, apesar do machismo e de ele aprontar todas e mais algumas com a cara dela), muito a contragosto da família. Por amor, ela enfrenta o pai e vai viver o grande amor de sua vida. Acontece que Capitão Rodrigo era bicho solto, e logo se cansa da vida de casado, deixando Bibiana sozinha por meses a fio para fazer compras em outra cidade e também para guerrear. Com ele, Bibiana tem três filhos: Bolívar, Anita e Leonor, e a do meio morre de febre numa noite de bebedeira do pai. Tempos mais tarde, o Capitão morre também na invasão à casa da família Amaral, os "donos" de Santa Fé. Bibiana vê o pai ir preso e a família perder a casa onde ela crescera. Resignada, acompanha o crescimento do filho, e quando ele se casa com Luzia, filha do homem que derrubara a casa de seu pai e ali construíra um sobrado, Bibiana toma novamente posse do chão que um dia havia sido seu. Vê o filho Bolívar ser assassinado, e, quando Luzia morre, assume a criação do neto Licurgo. É a grande matriarca da família Terra Cambará.
Nas palavras do autor: "Quem vai criar esse menino sou eu - disse Bibiana para si mesma. Se quiserem me tirar ele, eu brigo, como uma galinha defendendo seus pintos. Começou a fazer cálculos... Tinha cinqüenta anos: podia bem durar mais vinte... ou vinte e cinco, e assim veria Licurgo homem-feito, encaminhado na vida. Aquele menino, que tinha o sangue do cap. Rodrigo Cambará, ia ser o dono do Sobrado, dos campos do Angico e de milhares de cabeças de gado. Seu peito inflou-se de contentamento e esperança."
Graciela
Graciela é mãe de Beatriz e esposa de Santiago, preso político condenado por ter participado de uma guerrilha no Uruguai. Mãe e filha se mudam para a Argentina junto do sogro, Dom Rafael, e de um amigo de Santiago, Rolando. Graciela acaba por se apaixonar por Rolando, e os dois começam a ter um caso, sem saber como vão contar a verdade a Santiago quando ele sair da prisão. Pode-se dizer que Graciela é, das três citadas aqui até agora, a mais, digamos, moderna. Privada do contato com o marido, toma a iniciativa de ter relações sexuais com Rolando (muito errado trair o marido preso, concordo, mas não deixa de ser interessante ver uma mulher assumir assim seu desejo). Além disso, cuida sozinha da filha que, num país estrangeiro, tem que lidar com o preconceito dos colegas da escola por ser filha de um preso político. Ao mesmo tempo, tem que lidar com suas próprias questões pessoais. Quantas mães hoje em dia não passam por situações parecidas?
Nas palavras do autor: "- Confesso que nunca atentei para esse detalhe. Mas é possível.
- Mas eu sempre observei. Porque desde menina, quando viajava de trem, adorava olhar a paisagem. Era um de meus prazeres favoritos. Nunca lia nos trens. Até hoje, não gosto de ler quando viajo de trem. Fico fascinada com a paisagem vertiginosa que corre ao meu lado, mas em direção contrária. Mas quando vou sentada para a frente, parece que a paisagem vem para mim, sinto-me otimista, sei lá.
- E se estiver olhando para trás?
- Parece que a paisagem se esvai, se dilui, morre. Francamente, me deprime.
- E agora, como está sentada?
- Não brinque. Foi o que percebi no outro dia quando comecei a reler as cartas de Santiago. Ele, que está na prisão, escreve como se a vida viesse a seu encontro. Eu, em compensação, que por assim dizer vivo em liberdade, tenho às vezes a impressão de que a a paisagem vai se afastando, diluindo, acabando.
- Nada mal. Como intenção poética, é claro.
- Intenção poética coisa nenhuma. Nem mesmo prosa. É simplesmente como me sinto.
- Bem, agora estou falando sério. Sabe que esse seu estado de espírito me preocupa? E, embora esteja convencido de que cada um é o único que pode resolver seus próprios problemas, acho também que alguém de muita confiança pode ajudar às vezes, só ajudar. E me ofereço para essa ajuda relativa. Mas é essencial que você mergulhe em si mesma.
- Mergulhar em mim mesma? Pode ser. Pode ser. Mas não tenho certeza de que vou gostar."
Angelina Gattai
Zélia Gattai é uma memorialista de mão cheia. Que delícia é ler Anarquistas, Graças a Deus! Já li várias vezes, e em todas elas terminei o livro me sentindo quase um membro da família. Imigrante italiana anarquista, Angelina dá conta do marido, dos filhos, dos bichos, da casa. É uma autêntica Mama, mas é também dona de uma imensa consciência política social, e faz questão de transmitir aos filhos suas crenças. Dona Angelina era dura na queda!
Nas palavras da autora: "Mamãe interrompeu seu trabalho, levantado o pesado ferro de engomar. Não acreditava no que ouvia.
- Você leu direito?
- Claro que li.
- Mas será possível uma coisa dessas? Justo hoje que convidei a regina para ir com a gente...
Vera achou fraca a reação da mãe, longe da que esperava. Botou mais lenha na fogueira.
- O Terêncio estava lá, Mãe, varrendo e lavando o cinema. Perguntei pra ele se criança também pagava entrada inteira. Aí, ele começou a caçoar de mim: 'Cinema hoje é pra quem pode. Quem não pode vai torcer rabo de bode. E quer saber de uma coisa? Criança hoje vai pra cama cedo; são ordens do chefe. Ninguém entra de graça. Entrada inteira até pra criança de colo.'
Diante do último detalhe do relato, mamãe subiu a serra! Pousou o pesado ferro quente para melhor gesticular.
Vera adiantou-se; precisava dar conta do recado - não havia ainda contado tudo -, ajudar a mãe a estourar de raiva:
- Terêncio disse que o patrão vai se encher dos cobres. Que ele faz muito bem de cobrar entrada inteira, que todo mundo está doido para ver o filme.
- Vigliacchi, maledetti! - explodiu dona Angelina.
- Velhacos e malditos, Mãe? - interrompeu Wanda, sempre pronta a corrigi-la. - O dono do cinema não é só um?
- Farabutti, tutti quanti! - reforçou a mamãe. - Todos esses capitalistas, exploradores dos pobres, sanguessugas do povo. Ninguém reclama, ninguém protesta e eles fazendo dos humildes gato e sapato. Aumentam os preços de tudo quando querem, sem o mínimo respeito, sem a mínima consideração. Uns atrevidos soltos nas suas ganâncias. Uns atrevidões!"
Olga Benario Prestes
O que dizer de alguém sobre quem tanto já foi dito? A história de Olga é conhecida não só pela excelente biografia de Fernando Morais, mas também pela adaptação de Jayme Monjardim para as telonas, com Camila Morgado defendendo lindamente o papel. Olga foi membro do Partido Comunista, lutou ao lado de Luís Carlos Prestes no Brasil e, por ser uma alemã de origem judaica e, ainda por cima, comunista, acabou sendo entregue por Getúlio Vargas à Gestapo quando carregava no ventre Anita, sua filha com Prestes. Olga pode ficar com a bebê por cerca de um ano, até que ela parasse de mamar (e se você não chorou com essa cena no livro, ou pior, no filme, pode ir depilar esse coração peludo aí porque você tem probleminhas, sério). Anita foi entregue a avó, e Olga foi levada a um campo de concentração. Após sete anos na prisão, a revolucionária morreu numa câmara de gás.
Nas palavras da própria: "É totalmente impossível para mim imaginar, filha querida, que não voltarei a ver-te, que nunca mais voltarei a estreitar-te em meus braços ansiosos. Quisera pentear-te, fazer-te as tranças - ah, não, elas foram cortadas. Mas fica-te melhor o cabelo solto, um pouco desalinhado. Antes de tudo, vou fazer-te forte. Deves andar de sandálias, ou descalça, correr ao ar livre comigo. Sua avó, em princípio, não estará muito de acordo com isso, mas logo nos entenderemos muito bem. Deves respeitá-la e querê-la por toda a tua vida, como eu e teu pai fazemos. Todas as manhãs faremos ginástica... Vês? Já volto a sonhar, como tantas noites, e esqueço que esta é a minha despedida. E agora, quando penso nisto de novo, a ideia de que nunca mais poderei estreitar teu corpinho cálido é para mim como a morte."
Achei curioso que aqui na minha estante habitam várias mulheres fortes, mas poucas mães. Mesmo que algumas dessas mulheres fortes dos livros sejam mães, e muitas são, a maternidade não tem um papel de grande importância dentro dos enredos. Fiquei um bom tempo olhando para as prateleiras e pensando em que mães poderia incluir nesse texto. Talvez por escrever um pouco com pressa, tenha esquecido de alguma. Pensei em escrever sobre a Úrsula, de Cem Anos de Solidão, mas acho que preciso reler esse livro antes disso. Aleida March é outra sobre quem fiquei na dúvida se incluía ou não. Acabei por deixa-la de fora, não por achar que não merecesse estar aqui, mas também por sentir que minhas leituras sobre ela foram muito superficiais.
Aproveito o final desses escritos pra deixar uma homenagem a minha mãe, Edna. Se hoje sou quem eu sou, muito é por ela e por causa dela. Ela pode achar que não, mas aprendo com ela todos os dias. E digo aqui, numa linguagem só nossa, Vivi ami Mami.
